Monday, April 29, 2013

Labirintos

Corro pelos labirintos da minha alma à sua procura ...
Não encontro!
Perdido? Talvez!
O que se pergunta na minha consciência é que se algum dia isto terá fim, esta busca incessante.
Acho que sim. Força de vontade!
E saber esperar, como me diria alguém que acima de tudo estimo.
"Tem calma" diz-me ela "Espera" reforça com uma entoação agradável para me acalmar mas que apenas serve para me frustrar ainda mais.
Sou como um vulcão prestes a explodir a qualquer momento e a levar tudo à frente
Porquê? Raiva?! Sim.
Frustração?! Muita.
Desejo?! Isso acima de tudo.
Qual o meu desejo? O que quero de mim mesmo?
O fim da minha busca.......... Quero o poder .......... Quero.......... O meu demónio!

2007

Thursday, July 19, 2012

Lisboa, 6 de Julho de 2012.

Faz hoje um ano. Já passou um ano?! 365 dias, parece que foi ontem que aconteceu. Há um ano atrás eu era feliz. Nós éramos felizes. E nesse dia tiraram-me tudo.

Nesse dia ele morreu. E também uma parte de mim.

O metro chega à estação do Campo Grande, carregado de pessoas como é usual às 10h da manhã de mais um dia de semana. Algumas felizes, muitas chateadas a caminho de empregos mal pagos e aborrecidos. Correm de um lado para o outro numa dança voraz por apanhar uma outra linha ou autocarro. Os que já vão atrasados quase que atropelam quem lhes aparece pela frente.
É por pouco que um engravatado não atira ao chão uma mulher de bengala que se preparava para entrar na carruagem de onde ele saíra. Sem um pedido de desculpas nem sequer um olhar de preocupação, o tipo continuou o seu apressado caminho.
Por sua vez a mulher passou por mim a segredar impropérios antes de atravessar a porta. Eu segui atrás.

O calor humano sente-se fortemente na carruagem apinhada de gente. Para além do normal para uma Quarta-Feira, também se vêem muitos jovens preparados de mochilas às costas, não para a escola mas para chegar à praia. Denunciados pelos calções de banho e pelos chinelos, anseiam por chegar ao seu destino onde as ondas do mar morrem e o Sol torra a pele.
Todos aqui viajam com um destino e eu não sou excepção à regra.

Mas o meu destino é, talvez, dos mais tristes. Afinal o cemitério não é um sítio que queiramos visitar muitas vezes.
A primeira vez que fui a um cemitério foi com 18 anos, não para visitar a campa de um avô há muito falecido ou de um familiar distante. Foi para enterrar aquele que eu amei e me protegeu, mesmo nos seus últimos minutos de vida.

Custa a crer que já passou um ano inteiro, é como se tivesse sido ontem. Também a minha dor é igual, ou talvez mais profunda por estar a fermentar no meu âmago há tanto tempo.

Olho para a janela do veículo subterrâneo vendo a minha imagem nele reflectida, tão diferente do que era.
O cabelo mais curto, da maneira que ele dizia não gostar, os olhos cansados e encovados mais do que deviam espelhando o resultado de noites de insónias constantes.

Sei perfeitamente o que ele diria, que o meu cabelo era mais bonito comprido e que devia descansar mais. Mas nunca diria que eu estava feia ou horrível, muito pelo contrário, diria que, apesar de não gostar muito do cabelo desta forma nem de me ver cansada, eu continuava a ser a mulher mais bonita do Mundo.

Tiro um lenço para secar as lágrimas que nascem da minha memória. Ainda não é tempo de as soltar.
A última vez que ele me disse isto foi aqui, na estação de metro do Areeiro, numa das muitas carruagens que aqui circulam diariamente, indiferentes às vidas alheias.

Finalmente o metro pára na estação pretendida. Saio juntamente com algumas dezenas de pessoas que se empurram e resmungam entre si, partindo do princípio de que os outros se interessam pelas suas vidas. Não preciso de saber que estão atrasadas para o trabalho ou para uma consulta no dentista, mas agem como se todos devessem saber e, pior, importar-se com isso.

Arrasto os pés pela saída da estação de metro de Arroios deparando-me com a Rua Morais Soares à minha frente que conduz à sua última morada. Sob o Sol tórrido obrigo o meu corpo a reagir, a obrigar-me a subir pela rua que sempre achei estranha, tanto pelas pessoas que por lá circulam como pelas lojas estrangeiras e prédios de aspecto sombrio.

Tenho a noção de que a imagem que transpareço é a de um presidiário no corredor da morte, mas isso não me incomoda, a tristeza dá-me mais em que pensar.

A travessia da rua inclinada parece nunca mais acabar, ou então sou eu que não quero que ela acabe. Por muito tempo evitei esta zona por causa da memória a ela associada, por saber que ali jaz o seu corpo, corpo esse que nunca mais terá vida para me abraçar, beijar ou simplesmente dizer que está tudo bem naquele tom calmo e relaxante que só ele parecia conseguir atingir.

Por fim chego ao meu destino, a entrada principal do Cemitério do Alto de São João. Quem me dera que a minha viagem me levasse a um outro local, ou que, pelo menos, terminasse aqui. Mas não, ainda faltam alguns passos dentro do último sítio onde gostaria de estar neste momento.
Engulo em seco, ao mesmo tempo que sinto as lágrimas a querer aflorar-me aos olhos. Ainda não é a altura. Dou então o cruel e pesado passo em frente, atravessando o portão de ferro magnificamente trabalhado.

E é como se uma faca se espetasse no meu coração abrindo ainda mais uma ferida que não sarou no meu peito. Uma faca tão afiada como aquela que atravessou o coração dele naquela fatídica noite.

Passou-se um ano. Um ano em que tentei seguir em frente, que tentei esquecer, que tentei evitar que a dor fosse tão forte como neste momento. Um ano em que falhei redondamente.
Não vinha aqui desde o dia do funeral e mesmo assim, estranhamente, ainda recordo o caminho, mesmo tendo-o percorrido com os olhos lavados em lágrimas, passos cegos e um ligeiro estado de choque.

À medida que me desloco por entre mausoléus e jazigos ricamente detalhados (muitos deles bastante bonitos até), sinto um arrepio na espinha e uma convulsão na boca do estômago enquanto me aproximo da campa certa.
A cada passo a dor é mais forte, mais intensa. Persiste em querer fazer-me parar, em atirar tudo para o chão, virar costas e fugir daquilo que parece um pesadelo demasiado real.

Sou fraca! Sempre o disse. Mesmo quando ele dizia o contrário eu sentia-me assim. Mesmo sabendo que, se fosse tão fraca quanto acho, ele não estaria comigo. Porque ele odiava pessoas fracas e com medo de viver as suas vidas e arriscar por algo melhor para si mesmas.
Fazia tudo parecer tão simples, mesmo que a ideia fosse agarrar na mochila e partir à volta do Mundo à descoberta. Qualquer um diria que isso era uma loucura, mas ele não, ele diria que isso era arriscar sair do banal, deixar para trás, provavelmente, uma vida insatisfeita e aborrecida e procurar um futuro promissor repleto de vida e oportunidades.
E o mais fascinante era a convicção com que o dizia, podendo mesmo fazer com que a pessoa mais céptica pensasse duas vezes no assunto.
Ter coragem de arriscar em busca de algo melhor. Era essa a sua definição de ser forte.

Mas eu sou fraca, recuso-me cada vez mais a arriscar e vejo a minha vida a ficar cada vez mais inerte. No fundo não quero sair da minha zona de conforto, por mais crítica que ela seja. Não me sinto bem, mas isso também não é sinónimo de me sentir mal.

Os últimos passos até à placa de mármore sobre a qual se ergue uma outra mais pequena com uma foto a cores. Ao lado pode-se ler:

«Aqui jaz Daniel, um filho amado que partiu demasiado cedo»

A foto eu conheço bem, é igual à que trago dentro do medalhão ao pescoço. Mostra como ele realmente era.
Os longos cabelos negros encaracolados enquadravam o seu rosto longo numa moldura quase perfeita, os olhos verdes pareciam sorrir, mesmo que uma simples foto não conseguisse captar toda a intensidade do seu brilho. Sorria como o fazia sempre, mostrando os dentes quase perfeitamente alinhados à excepção de um incisivo à esquerda que estava ligeiramente mais recuado.

Sinto a dor e o alívio. Dor por nunca mais o ter como tive, alívio por ter conseguido cumprir a promessa que fiz a mim mesma e por finalmente me permitir chorar lágrimas que durante um ano guardei para mim.
Deposito os lilases, as suas flores favoritas, em cima da campa. Um pequeno gesto simbólico. E sento-me na terra seca, em silêncio enquanto me recordo da suas última palavra.

"Amo-te."



Tiago Venâncio

19-07-2012



Thursday, October 1, 2009

Libertação de um víciado

Tremem-me os braços.
Tenho a cabeça alagada em suor e a roupa colada ao corpo. Passo as mãos por baixo dos olhos encovados nas órbitas e sinto a pele negra ressequida.
Pelas costas correm-me calafrios. Abraço-me a tremer. As minhas mãos recusam-se a parar.
Na televisão passa um filme qualquer. Tenho a consciência de que o som está muito baixo mas mesmo assim ouço os gritos a ecoar na minha cabeça como se estivessem a ocorrer ali mesmo naquele quarto imundo.
Apalpo os lábios em ferida. O toque das crostas nos meus dedos é rude. Resultado de duas noites seguidas a morder-me.
De cima da mesa de cabeceira tiro uma bolacha de água e sal. Ao mete-la à boca o vómito é quase instantâneo. Inclino a cabeça para dentro do balde e lá despejo a bílis amarga que me enche o estômago instável. Não consigo comer há dias e a água que bebo parece queimar-me a garganta.
Debilmente levanto-me da cama em direcção ao espelho na parede. Acendo uma luz fraca que mesmo assim me queima os olhos.
O meu aspecto é deplorável.
O pouco cabelo que me resta está colado em madeixas suadas à cabeça, a barba cresce branca na minha cara que em tempos já fora mais enchida. Agora estou magro que nem uma caveira. Examino os olhos. Se estiverem amarelos é porque tenho o fígado a deixar de funcionar e tenho de ir para o hospital mais uma vez. As olheiras são negras e não me deixam distinguir muito bem a cor com a fraca luz ambiente. Para além das crostas na boca e das feridas ainda sangrentas tenho também restos de vómito colados aos lábios.
Limpo-os com um lenço amarelado que atiro ao chão com desprezo.
As cicatrizes no meu tronco nú contam histórias de lutas nas ruas. Os meus braços furados nas veias contam ainda mais histórias. Histórias de um vício que me mata aos poucos.
Lutas para alimentar um vício que me corrói a vida. Este foi o caminho para a minha auto-destruição.
De repente sou assolado por uma dor aguda no estômago. Sem forças caio no chão a gritar com a agonia nas minhas entranhas que ardem como se o inferno se tivesse instalado nelas.
Sei que por muito que grite ninguém virá em meu auxílio. Ninguém naquele lugar liga a um drogado em desintoxicação a resistir às suas dores o melhor que consegue. A tentar evitar cair nas enrugadas mãos da tentação.
Um último chuto. Saber-me-ia bem nas veias. Talvez um chuto de ouro. O bilhete expresso para o Paraíso.
Finalmente as dores param. Quase que me arrasto até à janela a fim de apanhas um pouco de ar fresco para acalmar a minha respiração acelerada.
Como seria fácil sair daquele quarto, andar uns quarteirões e comprar mais uma dose. Dar mais um chuto para as veias. Coleccionar mais um furo no braço.
Não tenho dinheiro. Nada naquele quarto serve para vender. As minhas forças são poucas para poder lutar em troca de uns míseros euros. E acima de tudo, quero soltar-me deste vício tenebroso. Voltar a casa, poder ter uma vida como tinha antes disto tudo.
Sim, esse é o meu desejo. Essa é a minha força

Saturday, July 11, 2009

Como um Deus.

Retornado do seu profundo sono sem pesadelos onde se podia refugiar dos seus ódios.
As visões ao abrir os olhos.
A alma pesada com a escuridão do seu coração.

O sangue gelado a ferver-lhe nas veias. Uma força sobre-humana que lhe impulsiona o corpo.
O seu regresso pretendido por muitos, temido por outros.
Ergueu-se do seu leito negro. Daquele onde jazia como um morto.
Oh, como muitos desejavam que estivesse morto. Que o seu coração pútrido não troveja-se mais no seu peito.
A aura negra envolvente a sua figura, os olhos vermelhos pelos quais passam visões de memórias passadas, de memórias odiáveis.
Aqueles olhos por onde já passaram coisas grandiosas, por onde já passou a mesquinhez daqueles seres humanos que se atravessaram no seu caminho.

Aqueles seres miseráveis que ousaram virar-se contra ele.
Que um dia sonharam em se rebelar.
E que foram vencidos pelo medo nos seus corações. Que foram repudiados com a própria sede de glória e cujas almas conspurcadas vagueiam no limbo separadas dos seus corpos pela fúria do metal.

Caminhando nas trevas daquele local vazio deteve-se perante o seu altar iluminado com uma ténue luz.
Ali repousava a sua espada forjada nos confins do Mundo, ainda banhada no sangue seco dos seus inimigos.
O doce cheiro a sangue no ar abafado, o toque frio do metal na mão quente, a sensação do poder de dar e tirar a vida imbuída em tão letal lâmina. O poder de actuar como um Deus que sobre a Terra lança a sua fúria.
Lançou uma gargalhada satisfeito. O poder de um Deus!
Aquela doce sede de vingança que só pode ser saciada com a vida dos que contra ele se uniram. Era inigualável.
Rapidamente a espada aguçada como o intelecto estava na bainha presa às costas. Pronta para mais uma recolha memorável de infelizes vítimas.
Colocou a mão na maçaneta da porta. Rodando-a a porta abriu-se inundando aquela divisão com uma luz branca como se lá fora fosse o Paraíso.
Caminhava para um Mundo de Luz com o coração carregado de Trevas. O Inferno está próximo.

Monday, March 23, 2009

Voltei a matar esta noite

Voltei a matar esta noite. O prazer de rasgar a carne, a luta da presa, os seus gritos desesperados a implorar para a poupar.
Estava grávida de três, quatro meses. Não mais que isso.
Ainda consigo ouvir os seus soluços enquanto dizia que ia ter um filho, para lhe poupar a vida.
Não liguei.
Matei-a aos poucos retirando todo o prazer da chacina. A faca na carne rasgando pele e músculos, os uivos de dor a minha respiração acelerada pela loucura.
E depois ... Depois parou. A sua voz esvaiu-se na noite, os seus membros caíram inertes contra a calçada.
Tão frágil o corpo humano, tão delicada a sua composição, tão sensível a sua existência ridícula.
Manchado de sangue olhei aquela mulher agora irreconhecível como tal.
Os olhos arrancados, os dentes espalhados pela rua, o maxilar a pender depois de o partir com um pontapé certeiro, o ventre aberto para a noite mostrando uma massa estranha no seu interior ... Outro ser destruído e no entanto a sua mãe não era muito diferente. Uma massa disforme, ensanguentada, irreconhecível.
Era de facto parecido com a sua mãe.
Virei costas e caí envolto nas sombras. Larguei a faca, instrumento tão útil nestas noites calorosas. À medida que a minha respiração acalmava lambia o sangue dos lábios limpando-os das réstias do meu prazer mórbido.
Voltei a matar esta noite. E certamente voltarei a fazê-lo.

-Diário de um louco-

16/03/2009

Thursday, December 4, 2008

Dorme comigo esta noite.

Vem. Dá-me a tua mão, suave como a mais fina seda. Caminha comigo por estes corredores perdidos entre este Mundo e o outro. Encaminha-me na infinita escuridão. Tenho o corpo assolado pelo cansaço. Guia-me para aquela cama de dossel onde todas as noites me deito à espera da tua presença a meu lado.

Caio na almofada, exausto. Beija-me suavemente a face com os teus lábios de algodão. Murmura-me ao ouvido uma boa noite com a tua voz encantada. Passa-me a mão no rosto enquanto caio nas profundezas de um sonho onde os protagonistas são tu e eu.

Sunday, October 12, 2008

"Do pó vieste e ao pó regressarás"

"Do pó vieste e ao pó regressarás"

Eis quando o Demónio se ergue das cinzas e caminha sob o deserto pisando os cadáveres fétidos olhando a desgraça humana em seu redor. Retirou a sua espada negra do peito de um homem que ainda respirava pesadamente. Deu-lhe um pontapé na cabeça partindo-lhe o pescoço.

Levou o fio da lâmina à boca e provou o doce sangue com a língua. Os seus olhos negros brilharam com um fogo intenso e um sorriso insano desenhou-se na sua cara. O vento soprou varrendo os seus cabelos. Acima de si abutres voavam em círculos preparando-se para um festim necrófilo no chão. Um corvo surgiu então pousando no seu ombro olhando-o com um ar familiar. Grasnou e logo se ergueu no ar.

O Demónio embainhou a espada ao cinto numa baínha vermelha escalarte e atravessou o campo cadavérico deixando atrás de si um rasto de destruição consumido por abutres famintos.

Enrolou-se na sua túnica azul escura e caminhou para destino incerto com o sorriso demente ainda estampado no rosto.

Wednesday, September 17, 2008

"As pessoas dão um passo para ti e tu dás dois para trás"

"As pessoas dão um passo para ti e tu dás dois para trás. És um triste, um miserável. Afastas as pessoas e se não entenderes isso a tempo vais acabar sozinho, triste e vazio. Mas é mesmo isso que mereces não é? És um egoísta que só pensa em si, não és capaz de amar ninguém para além de ti e mesmo assim tenho as minhas dúvidas se te consegues amar ao menos".

Aquelas palavras ecoavam-lhe na cabeça numa verdadeira rotina.
Afastava as pessoas, afastava-se a ele mesmo. Amigos, amores ... até dele mesmo se afastava. Não era a pessoa que outrora fora. Já não era mais aquela criança sorridente que ajudava todos e que queria estar bem com as pessoas de quem mais gostava. Agora, angustiado, magoado e desiludido só se afastava. Queria as pessoas longe dele, viver no seu canto sozinho, ouvir a sua música, escrever os seus textos carregados de ódio corrosivo. Vivia agarrado a um passado que havia sido severo com ele, agarrado a assuntos inacabados. A ódios. A dores. Havia mudado imenso. E ele odiava mudanças.
Porém aquilo ensinou-o. Deixou de viver dependente das pessoas que sempre o desiludiriam, colocou os sentimentos de parte e sempre que estes pareciam querer irromper pelo seu ser acima limitava-se a repudia-los de volta para o canto escuro do seu coração e lá ficavam enterrados e esquecidos. Tornou-se um egoísta maquiavélico onde a ética dos seus meios não importavam para os seus fins.
Agora vivia com ele mesmo, por vezes deixava um punhado de pessoas aproximar-se o suficiente apenas para recordar o tempo em que não era um solitário mas logo voltava a afastá-las quando estas começavam a andar para ele.
Tornou-se naquilo que lhe diziam que iria ser um dia, um miserável. E no fundo não era tão mau quanto isso!

Monday, October 15, 2007

20/07/2007

Olho o vazio infinito dos meus olhos reflectido no prateado do lago iluminado pela Lua. A minha expressão é feliz, mas, e o resto?
Penso na felicidade real do ser. Felicidade real? Impossível!
Nada é real, nem mesmo e felicidade, nem sequer a morte. Apenas conjecturas criadas pela mente humanda que nada sabe.
As olheiras revelam o meu cansaço infinito. Tenho sono mas não durmo, algo me impede sem razão aparente. Acho que é a falsa realidade.
Que sentimentos imundos prevalecem escondidos no canto escuro da minha alma? Não quero a resposta. Nem agora, nem nunca.
Perguntam-me que ser estranho sou eu que recusa respostas à suas próprias perguntas. Simplesmente encolho os ombros e limito-me a responder com mais uma das tantas perguntas que faço. "Quem se importa realmente?"

Sunday, October 7, 2007

Divagações

Olho a folha. Vazia. Apenas enfeitada por linhas sedentas de tinta, frases, palavras. Palavras que não me saem da cabeça para uma simples folha, pedaço de árvore. Em meu redor alguém fala. Não tomo atenção alguma.
Podiam falar de artes ou ciências. Não me interessam tais assuntos, tal estou absorto nos meus pensamentos filosóficos sobre a miséria que a vida é.
Olho o céu lá fora, cinzento pelas nuvens que não deixam o calor do Sol passar. Sempre gostei do céu, mas não como está hoje, parece triste, pelo menos o azul é um pouco mais alegre, mais vivo que o cinzento.
Mas gosto do preto. Da cor em si. E gosto do céu negro à noite ponteado a branco pelas estrelas. Sim, o céu é definitivamente algo que aprecio na sua totalidade, excepto calro, quando está cinzento.
Divago de novo, abstenho-me das mil e uma vozes que ecoam em meu redor e que tentam fazer-me ouvi-las. Não quero! Quero o meu Mundo próprio onde me fecho por vezes.
Paz. Finalmente. É algo simples dividido em duas partes. Dois Mundos dentro de um só.
Uma parte negra onde o dia não existe, apenas trevas e maldade. Uma pequena parte de mim reside nesse espaço e é aí que se alimenta. A minha alma dividida. A outra parte deste Mundo é como que perfeita, uma cabana à beira de um lago no meio de uma grande clareira. Dois Mundos, cada um ligado a mim de uma maneira ou de outra. Gostava de lá ficar para sempre, mas não posso, não me deixam, estão constantemente a acordar-me do meu “transe” para este Mundo real, sujo e nojento cheio de seres estranhos.
Pessoas! Deixei de gostar delas. Podres por dentro e por fora, muitas delas falsas, outras tantas hipócritas. A Natureza humana é estranha, demasiado até. Sempre à procura de mais, ambiciosa ao ponto de matar os seus iguais apenas por algo material ou estados de espírito estúpidos.
Estupidez. Penso que não haja substantivo qualificativo para descrever tão bem as pessoas. Odeio humanos! Quem me ouve considera-me louco por os distinguir de mim, mas realmente não me sinto um humano mas sim algo superior a isso.
As vozes em meu redor continuam os seus discursos monótonos e inúteis. Por segundos presto alguma atenção e escuto-as. O que dizem não me interessa. Comentam as vidas uns dos outros, falam mal como as velhinhas da aldeia. Metem-me nojo.
Preciso de paz, descanso … e não tenho nada disso. Dói-me a cabeça de uma forma tão intensa que já mal consigo pensar.
CALEM-SE!
Grito de raiva e frustração e as pessoas de vozes irritantes calam-se finalmente. Por pouco tempo, infelizmente. Uma voz esganiçada recomeça a falar e com ela leva as outras todas de arrasto.
Não aguento mais, estou cansado e sem força. Olho estas folhas novamente e vejo-as cheias. Palavras, frases, riscos e afins. Acalmei a sede de tinta destas linhas, mas a minha ambição de me livrar do meu ser continua sem resultados. Fecho o caderno e levanto-me calmamente. Mais uma vez as pessoas calam-se por muito breves instantes, olhando-me e avaliando-me, voltando à conversa de novo. Mas agora a conversa é outra, sou eu o principal alvo da má-língua. Encaminho-me até à varanda e olho a rua vários andares abaixo de mim. Sento-me no parapeito entretido a balançar as pernas ao ventos distraindo-me de novo, pelo menos aqui tenho alguma paz. Só se ouve o vento. Por vezes penso como seria ser como o vento, correr livre a grande velocidade não tendo qualquer barrira, arrastando às minhas costas folhas de árvores e poeiras, acabando por me dispersar à beira mar.
O mar, como é fantástica a sua imensidão como um longo manto azul que aconchega a Terra. E o seu cheiro. O salgado aroma da maresia é agressivo e ao mesmo tempo suave. Como saberia bem estar agora sentado numa esplanada à beira mar enquanto o Sol se escondia atrás da linha do horizonte.
Mas não! Olho uma cidade poluída pelo fumo dos carros, pelos humanos nojentos que se autodestroem no meio do seu próprio lixo e as luzes que formam um espectáculo rodopiante para os olhos de um observador como eu.
Lá dentro, atrás de mim, as pessoas finalmente foram-se embora deixando-me em paz.
Mas as vozes voltam. Estão na minha cabeça aos gritos dizendo palavras que na sua maioria não entendo e, as que consigo decifrar, estão recheadas de raiva e ódio. Dói-me a cabeça cada vez mais. Puxo as pernas até ao peito e abraço-as enquanto continuo a olhar as luzes. Pergunto a mim mesmo de onde partem estas vozes que me atormentam com tanta força e me causam dores agudas, não só na cabeça, mas também no meu ser, na minha alma. Alma essa corroída pelo tempo e pelas pessoas que ao longo da miserável vida encontrei no meu caminho. Vida.
Vida; como é fútil e incompreensível. Por vezes surge-me a ideia de que, se calhar, a morte não será uma melhor saída. A morte é para cobardes, para aqueles incapazes de lutar por si sós e que encontram a sua saída fácil na morte. Fracos, digo eu. Quando penso em matar-me e depois volto a mim penso no estúpido que fui no meus pensamentos. O que me agarra à vida? Amigos.
Pessoas com quem tenho laços e confio plenamente. Há sempre o risco de ser traído. É para aprender a não ser parvo nas escolhas. Devia era estar sozinho como agora. É um pensamento egoísta eu sei, mas às vezes … Não! Os humanos são egoístas, eu não me vou tornar num deles, eu sou superior a isso e aos seus sentimentos.
Sentimentos. Tão doces e tão inúteis. Apenas a raiva e o ódio importam, o resto é tão louco quanto fútil. A vingança, esse sentimento tão frio e tão belo! Um dia todos pagarão, principalmente os meus inimigos, aqueles que me fizeram sofrer, aqueles que de uma maneira ou de outra me atingiram de forma marcante pela negativa. Alguns pagam agora por tudo o que me fizeram, e sofrem com isso. Que morram e ardam no inferno! Todos eles!
Olho o relógio. Parou. Os dois ponteiros apontam para o número doze. Parece que parou há muito tempo. Perdi a noção das coisas e do tempo.
Tempo. Tão vasto e infinito, porém, o tempo da nossa vida não basta para fazer sequer um terço do que planeámos, falta tempo para isso.
Levanto-me e ponho-me em pé em cima do parapeito e caminho equilibrando-me enquanto o vento sopra numa tentativa frustrada de me empurrar. Ao longe os sinos tocam, à porta da igreja as pessoas avançam em busca da redenção dos seus pecados apelando primeiro aos santos, e depois a Deus. Não os entendo, porquê falar aos seus santos e depois a Deus? Se é Deus quem está no topo da hierarquia, porque rezam as pessoas aos santos? Um autêntica perda de tempo, tanto rezar para santos, como para Deus. Em santos não acredito, e em Deus perdi toda a minha fé a partir do momentos em que ele me abandonou.
Fiquei entregue a mim mesmo sem tábua de salvação à qual me possa agarrar. Caminho, literalmente, sem destino, à deriva na vastidão do deserto. Vagueio de novo pelo pensamento com o caderno a pender-me nas mãos até que, de novo, sou rematado para a realidade cruel do Mundo.
Água. Algumas gotas caiem-me em cima do nariz, lentamente, e logo de seguida, começa um pequeno dilúvio que me molha até aos ossos. É apenas água, mas é fria e o meu corpo treme enquanto não se habitua à quebra de temperatura. Mas brevemente a chuva pára, tão repentinamente como começou. É este o belo trabalho que os humanos andam a fazer. Agora faz Sol, daqui a cinco minutos chove e há inundações por toda a cidade.
O cansaço apodera-se de mim e as minhas pálpebra pesam cada vez mais.
Acendo um cigarro. Como sabe bem aquele pedaço de vício, o fumo cada vez mais mortal a penetrar nos meus pulmões aliviando o desejo que o meu corpo tanto reclama. Caminho pela grande varanda pacientemente como que esperando algo. Questiono o quê, mas a resposta não vem.
As nuvens passam e revelam um belo luar que me hipnotiza. Lua cheia, das poucas coisas que nos tempos que correm me consegue realmente captar a atenção.
Vem-me à memória uma pessoa, e logo de seguida outra. Isto sucede-se continuamente. Vejo pessoas que amo, pessoas que odeio, conhecidos, desconhecidos. No fim vejo-me a mim mesmo. O meu reflexo, uma outra realidade que nunca compreenderei. Sinto um toque físico e desperto para a realidade. Ainda fito a Lua, mas o toque no meu ombro continua. Viro-me e vejo uma criança. Um rapaz não com mais de oito anos olha-me. Não vejo os seus olhos ocultos por detrás dos seus cabelos negros escorredios que lhe caiem pela face como cortinas.
Então ele aponta para a Lua e olho de novo.
Desapareceu. Volto a olhar para o rapaz mas também ele desapareceu tão inesperadamente como apareceu. Fico sozinho no escuro uma vez mais.
Subo para cima do parapeito e mantenho-me em pé olhando para baixo. Sonho acordado. Um estação de comboios, uns olhos azuis, um lugar estranho … Sinto a leveza do meu corpo numa queda sem fim, por instantes abro os braços e vejo de novo a Lua Cheia. Fecho-os de novo com um sorriso desenhado na face sentindo ainda as folhas do caderno apertadas firmemente nas minhas mãos.

[25/04/2007 – 31/05/2007]