Monday, October 15, 2007

20/07/2007

Olho o vazio infinito dos meus olhos reflectido no prateado do lago iluminado pela Lua. A minha expressão é feliz, mas, e o resto?
Penso na felicidade real do ser. Felicidade real? Impossível!
Nada é real, nem mesmo e felicidade, nem sequer a morte. Apenas conjecturas criadas pela mente humanda que nada sabe.
As olheiras revelam o meu cansaço infinito. Tenho sono mas não durmo, algo me impede sem razão aparente. Acho que é a falsa realidade.
Que sentimentos imundos prevalecem escondidos no canto escuro da minha alma? Não quero a resposta. Nem agora, nem nunca.
Perguntam-me que ser estranho sou eu que recusa respostas à suas próprias perguntas. Simplesmente encolho os ombros e limito-me a responder com mais uma das tantas perguntas que faço. "Quem se importa realmente?"

Sunday, October 7, 2007

Divagações

Olho a folha. Vazia. Apenas enfeitada por linhas sedentas de tinta, frases, palavras. Palavras que não me saem da cabeça para uma simples folha, pedaço de árvore. Em meu redor alguém fala. Não tomo atenção alguma.
Podiam falar de artes ou ciências. Não me interessam tais assuntos, tal estou absorto nos meus pensamentos filosóficos sobre a miséria que a vida é.
Olho o céu lá fora, cinzento pelas nuvens que não deixam o calor do Sol passar. Sempre gostei do céu, mas não como está hoje, parece triste, pelo menos o azul é um pouco mais alegre, mais vivo que o cinzento.
Mas gosto do preto. Da cor em si. E gosto do céu negro à noite ponteado a branco pelas estrelas. Sim, o céu é definitivamente algo que aprecio na sua totalidade, excepto calro, quando está cinzento.
Divago de novo, abstenho-me das mil e uma vozes que ecoam em meu redor e que tentam fazer-me ouvi-las. Não quero! Quero o meu Mundo próprio onde me fecho por vezes.
Paz. Finalmente. É algo simples dividido em duas partes. Dois Mundos dentro de um só.
Uma parte negra onde o dia não existe, apenas trevas e maldade. Uma pequena parte de mim reside nesse espaço e é aí que se alimenta. A minha alma dividida. A outra parte deste Mundo é como que perfeita, uma cabana à beira de um lago no meio de uma grande clareira. Dois Mundos, cada um ligado a mim de uma maneira ou de outra. Gostava de lá ficar para sempre, mas não posso, não me deixam, estão constantemente a acordar-me do meu “transe” para este Mundo real, sujo e nojento cheio de seres estranhos.
Pessoas! Deixei de gostar delas. Podres por dentro e por fora, muitas delas falsas, outras tantas hipócritas. A Natureza humana é estranha, demasiado até. Sempre à procura de mais, ambiciosa ao ponto de matar os seus iguais apenas por algo material ou estados de espírito estúpidos.
Estupidez. Penso que não haja substantivo qualificativo para descrever tão bem as pessoas. Odeio humanos! Quem me ouve considera-me louco por os distinguir de mim, mas realmente não me sinto um humano mas sim algo superior a isso.
As vozes em meu redor continuam os seus discursos monótonos e inúteis. Por segundos presto alguma atenção e escuto-as. O que dizem não me interessa. Comentam as vidas uns dos outros, falam mal como as velhinhas da aldeia. Metem-me nojo.
Preciso de paz, descanso … e não tenho nada disso. Dói-me a cabeça de uma forma tão intensa que já mal consigo pensar.
CALEM-SE!
Grito de raiva e frustração e as pessoas de vozes irritantes calam-se finalmente. Por pouco tempo, infelizmente. Uma voz esganiçada recomeça a falar e com ela leva as outras todas de arrasto.
Não aguento mais, estou cansado e sem força. Olho estas folhas novamente e vejo-as cheias. Palavras, frases, riscos e afins. Acalmei a sede de tinta destas linhas, mas a minha ambição de me livrar do meu ser continua sem resultados. Fecho o caderno e levanto-me calmamente. Mais uma vez as pessoas calam-se por muito breves instantes, olhando-me e avaliando-me, voltando à conversa de novo. Mas agora a conversa é outra, sou eu o principal alvo da má-língua. Encaminho-me até à varanda e olho a rua vários andares abaixo de mim. Sento-me no parapeito entretido a balançar as pernas ao ventos distraindo-me de novo, pelo menos aqui tenho alguma paz. Só se ouve o vento. Por vezes penso como seria ser como o vento, correr livre a grande velocidade não tendo qualquer barrira, arrastando às minhas costas folhas de árvores e poeiras, acabando por me dispersar à beira mar.
O mar, como é fantástica a sua imensidão como um longo manto azul que aconchega a Terra. E o seu cheiro. O salgado aroma da maresia é agressivo e ao mesmo tempo suave. Como saberia bem estar agora sentado numa esplanada à beira mar enquanto o Sol se escondia atrás da linha do horizonte.
Mas não! Olho uma cidade poluída pelo fumo dos carros, pelos humanos nojentos que se autodestroem no meio do seu próprio lixo e as luzes que formam um espectáculo rodopiante para os olhos de um observador como eu.
Lá dentro, atrás de mim, as pessoas finalmente foram-se embora deixando-me em paz.
Mas as vozes voltam. Estão na minha cabeça aos gritos dizendo palavras que na sua maioria não entendo e, as que consigo decifrar, estão recheadas de raiva e ódio. Dói-me a cabeça cada vez mais. Puxo as pernas até ao peito e abraço-as enquanto continuo a olhar as luzes. Pergunto a mim mesmo de onde partem estas vozes que me atormentam com tanta força e me causam dores agudas, não só na cabeça, mas também no meu ser, na minha alma. Alma essa corroída pelo tempo e pelas pessoas que ao longo da miserável vida encontrei no meu caminho. Vida.
Vida; como é fútil e incompreensível. Por vezes surge-me a ideia de que, se calhar, a morte não será uma melhor saída. A morte é para cobardes, para aqueles incapazes de lutar por si sós e que encontram a sua saída fácil na morte. Fracos, digo eu. Quando penso em matar-me e depois volto a mim penso no estúpido que fui no meus pensamentos. O que me agarra à vida? Amigos.
Pessoas com quem tenho laços e confio plenamente. Há sempre o risco de ser traído. É para aprender a não ser parvo nas escolhas. Devia era estar sozinho como agora. É um pensamento egoísta eu sei, mas às vezes … Não! Os humanos são egoístas, eu não me vou tornar num deles, eu sou superior a isso e aos seus sentimentos.
Sentimentos. Tão doces e tão inúteis. Apenas a raiva e o ódio importam, o resto é tão louco quanto fútil. A vingança, esse sentimento tão frio e tão belo! Um dia todos pagarão, principalmente os meus inimigos, aqueles que me fizeram sofrer, aqueles que de uma maneira ou de outra me atingiram de forma marcante pela negativa. Alguns pagam agora por tudo o que me fizeram, e sofrem com isso. Que morram e ardam no inferno! Todos eles!
Olho o relógio. Parou. Os dois ponteiros apontam para o número doze. Parece que parou há muito tempo. Perdi a noção das coisas e do tempo.
Tempo. Tão vasto e infinito, porém, o tempo da nossa vida não basta para fazer sequer um terço do que planeámos, falta tempo para isso.
Levanto-me e ponho-me em pé em cima do parapeito e caminho equilibrando-me enquanto o vento sopra numa tentativa frustrada de me empurrar. Ao longe os sinos tocam, à porta da igreja as pessoas avançam em busca da redenção dos seus pecados apelando primeiro aos santos, e depois a Deus. Não os entendo, porquê falar aos seus santos e depois a Deus? Se é Deus quem está no topo da hierarquia, porque rezam as pessoas aos santos? Um autêntica perda de tempo, tanto rezar para santos, como para Deus. Em santos não acredito, e em Deus perdi toda a minha fé a partir do momentos em que ele me abandonou.
Fiquei entregue a mim mesmo sem tábua de salvação à qual me possa agarrar. Caminho, literalmente, sem destino, à deriva na vastidão do deserto. Vagueio de novo pelo pensamento com o caderno a pender-me nas mãos até que, de novo, sou rematado para a realidade cruel do Mundo.
Água. Algumas gotas caiem-me em cima do nariz, lentamente, e logo de seguida, começa um pequeno dilúvio que me molha até aos ossos. É apenas água, mas é fria e o meu corpo treme enquanto não se habitua à quebra de temperatura. Mas brevemente a chuva pára, tão repentinamente como começou. É este o belo trabalho que os humanos andam a fazer. Agora faz Sol, daqui a cinco minutos chove e há inundações por toda a cidade.
O cansaço apodera-se de mim e as minhas pálpebra pesam cada vez mais.
Acendo um cigarro. Como sabe bem aquele pedaço de vício, o fumo cada vez mais mortal a penetrar nos meus pulmões aliviando o desejo que o meu corpo tanto reclama. Caminho pela grande varanda pacientemente como que esperando algo. Questiono o quê, mas a resposta não vem.
As nuvens passam e revelam um belo luar que me hipnotiza. Lua cheia, das poucas coisas que nos tempos que correm me consegue realmente captar a atenção.
Vem-me à memória uma pessoa, e logo de seguida outra. Isto sucede-se continuamente. Vejo pessoas que amo, pessoas que odeio, conhecidos, desconhecidos. No fim vejo-me a mim mesmo. O meu reflexo, uma outra realidade que nunca compreenderei. Sinto um toque físico e desperto para a realidade. Ainda fito a Lua, mas o toque no meu ombro continua. Viro-me e vejo uma criança. Um rapaz não com mais de oito anos olha-me. Não vejo os seus olhos ocultos por detrás dos seus cabelos negros escorredios que lhe caiem pela face como cortinas.
Então ele aponta para a Lua e olho de novo.
Desapareceu. Volto a olhar para o rapaz mas também ele desapareceu tão inesperadamente como apareceu. Fico sozinho no escuro uma vez mais.
Subo para cima do parapeito e mantenho-me em pé olhando para baixo. Sonho acordado. Um estação de comboios, uns olhos azuis, um lugar estranho … Sinto a leveza do meu corpo numa queda sem fim, por instantes abro os braços e vejo de novo a Lua Cheia. Fecho-os de novo com um sorriso desenhado na face sentindo ainda as folhas do caderno apertadas firmemente nas minhas mãos.

[25/04/2007 – 31/05/2007]