Thursday, October 1, 2009

Libertação de um víciado

Tremem-me os braços.
Tenho a cabeça alagada em suor e a roupa colada ao corpo. Passo as mãos por baixo dos olhos encovados nas órbitas e sinto a pele negra ressequida.
Pelas costas correm-me calafrios. Abraço-me a tremer. As minhas mãos recusam-se a parar.
Na televisão passa um filme qualquer. Tenho a consciência de que o som está muito baixo mas mesmo assim ouço os gritos a ecoar na minha cabeça como se estivessem a ocorrer ali mesmo naquele quarto imundo.
Apalpo os lábios em ferida. O toque das crostas nos meus dedos é rude. Resultado de duas noites seguidas a morder-me.
De cima da mesa de cabeceira tiro uma bolacha de água e sal. Ao mete-la à boca o vómito é quase instantâneo. Inclino a cabeça para dentro do balde e lá despejo a bílis amarga que me enche o estômago instável. Não consigo comer há dias e a água que bebo parece queimar-me a garganta.
Debilmente levanto-me da cama em direcção ao espelho na parede. Acendo uma luz fraca que mesmo assim me queima os olhos.
O meu aspecto é deplorável.
O pouco cabelo que me resta está colado em madeixas suadas à cabeça, a barba cresce branca na minha cara que em tempos já fora mais enchida. Agora estou magro que nem uma caveira. Examino os olhos. Se estiverem amarelos é porque tenho o fígado a deixar de funcionar e tenho de ir para o hospital mais uma vez. As olheiras são negras e não me deixam distinguir muito bem a cor com a fraca luz ambiente. Para além das crostas na boca e das feridas ainda sangrentas tenho também restos de vómito colados aos lábios.
Limpo-os com um lenço amarelado que atiro ao chão com desprezo.
As cicatrizes no meu tronco nú contam histórias de lutas nas ruas. Os meus braços furados nas veias contam ainda mais histórias. Histórias de um vício que me mata aos poucos.
Lutas para alimentar um vício que me corrói a vida. Este foi o caminho para a minha auto-destruição.
De repente sou assolado por uma dor aguda no estômago. Sem forças caio no chão a gritar com a agonia nas minhas entranhas que ardem como se o inferno se tivesse instalado nelas.
Sei que por muito que grite ninguém virá em meu auxílio. Ninguém naquele lugar liga a um drogado em desintoxicação a resistir às suas dores o melhor que consegue. A tentar evitar cair nas enrugadas mãos da tentação.
Um último chuto. Saber-me-ia bem nas veias. Talvez um chuto de ouro. O bilhete expresso para o Paraíso.
Finalmente as dores param. Quase que me arrasto até à janela a fim de apanhas um pouco de ar fresco para acalmar a minha respiração acelerada.
Como seria fácil sair daquele quarto, andar uns quarteirões e comprar mais uma dose. Dar mais um chuto para as veias. Coleccionar mais um furo no braço.
Não tenho dinheiro. Nada naquele quarto serve para vender. As minhas forças são poucas para poder lutar em troca de uns míseros euros. E acima de tudo, quero soltar-me deste vício tenebroso. Voltar a casa, poder ter uma vida como tinha antes disto tudo.
Sim, esse é o meu desejo. Essa é a minha força