Thursday, July 19, 2012

Lisboa, 6 de Julho de 2012.

Faz hoje um ano. Já passou um ano?! 365 dias, parece que foi ontem que aconteceu. Há um ano atrás eu era feliz. Nós éramos felizes. E nesse dia tiraram-me tudo.

Nesse dia ele morreu. E também uma parte de mim.

O metro chega à estação do Campo Grande, carregado de pessoas como é usual às 10h da manhã de mais um dia de semana. Algumas felizes, muitas chateadas a caminho de empregos mal pagos e aborrecidos. Correm de um lado para o outro numa dança voraz por apanhar uma outra linha ou autocarro. Os que já vão atrasados quase que atropelam quem lhes aparece pela frente.
É por pouco que um engravatado não atira ao chão uma mulher de bengala que se preparava para entrar na carruagem de onde ele saíra. Sem um pedido de desculpas nem sequer um olhar de preocupação, o tipo continuou o seu apressado caminho.
Por sua vez a mulher passou por mim a segredar impropérios antes de atravessar a porta. Eu segui atrás.

O calor humano sente-se fortemente na carruagem apinhada de gente. Para além do normal para uma Quarta-Feira, também se vêem muitos jovens preparados de mochilas às costas, não para a escola mas para chegar à praia. Denunciados pelos calções de banho e pelos chinelos, anseiam por chegar ao seu destino onde as ondas do mar morrem e o Sol torra a pele.
Todos aqui viajam com um destino e eu não sou excepção à regra.

Mas o meu destino é, talvez, dos mais tristes. Afinal o cemitério não é um sítio que queiramos visitar muitas vezes.
A primeira vez que fui a um cemitério foi com 18 anos, não para visitar a campa de um avô há muito falecido ou de um familiar distante. Foi para enterrar aquele que eu amei e me protegeu, mesmo nos seus últimos minutos de vida.

Custa a crer que já passou um ano inteiro, é como se tivesse sido ontem. Também a minha dor é igual, ou talvez mais profunda por estar a fermentar no meu âmago há tanto tempo.

Olho para a janela do veículo subterrâneo vendo a minha imagem nele reflectida, tão diferente do que era.
O cabelo mais curto, da maneira que ele dizia não gostar, os olhos cansados e encovados mais do que deviam espelhando o resultado de noites de insónias constantes.

Sei perfeitamente o que ele diria, que o meu cabelo era mais bonito comprido e que devia descansar mais. Mas nunca diria que eu estava feia ou horrível, muito pelo contrário, diria que, apesar de não gostar muito do cabelo desta forma nem de me ver cansada, eu continuava a ser a mulher mais bonita do Mundo.

Tiro um lenço para secar as lágrimas que nascem da minha memória. Ainda não é tempo de as soltar.
A última vez que ele me disse isto foi aqui, na estação de metro do Areeiro, numa das muitas carruagens que aqui circulam diariamente, indiferentes às vidas alheias.

Finalmente o metro pára na estação pretendida. Saio juntamente com algumas dezenas de pessoas que se empurram e resmungam entre si, partindo do princípio de que os outros se interessam pelas suas vidas. Não preciso de saber que estão atrasadas para o trabalho ou para uma consulta no dentista, mas agem como se todos devessem saber e, pior, importar-se com isso.

Arrasto os pés pela saída da estação de metro de Arroios deparando-me com a Rua Morais Soares à minha frente que conduz à sua última morada. Sob o Sol tórrido obrigo o meu corpo a reagir, a obrigar-me a subir pela rua que sempre achei estranha, tanto pelas pessoas que por lá circulam como pelas lojas estrangeiras e prédios de aspecto sombrio.

Tenho a noção de que a imagem que transpareço é a de um presidiário no corredor da morte, mas isso não me incomoda, a tristeza dá-me mais em que pensar.

A travessia da rua inclinada parece nunca mais acabar, ou então sou eu que não quero que ela acabe. Por muito tempo evitei esta zona por causa da memória a ela associada, por saber que ali jaz o seu corpo, corpo esse que nunca mais terá vida para me abraçar, beijar ou simplesmente dizer que está tudo bem naquele tom calmo e relaxante que só ele parecia conseguir atingir.

Por fim chego ao meu destino, a entrada principal do Cemitério do Alto de São João. Quem me dera que a minha viagem me levasse a um outro local, ou que, pelo menos, terminasse aqui. Mas não, ainda faltam alguns passos dentro do último sítio onde gostaria de estar neste momento.
Engulo em seco, ao mesmo tempo que sinto as lágrimas a querer aflorar-me aos olhos. Ainda não é a altura. Dou então o cruel e pesado passo em frente, atravessando o portão de ferro magnificamente trabalhado.

E é como se uma faca se espetasse no meu coração abrindo ainda mais uma ferida que não sarou no meu peito. Uma faca tão afiada como aquela que atravessou o coração dele naquela fatídica noite.

Passou-se um ano. Um ano em que tentei seguir em frente, que tentei esquecer, que tentei evitar que a dor fosse tão forte como neste momento. Um ano em que falhei redondamente.
Não vinha aqui desde o dia do funeral e mesmo assim, estranhamente, ainda recordo o caminho, mesmo tendo-o percorrido com os olhos lavados em lágrimas, passos cegos e um ligeiro estado de choque.

À medida que me desloco por entre mausoléus e jazigos ricamente detalhados (muitos deles bastante bonitos até), sinto um arrepio na espinha e uma convulsão na boca do estômago enquanto me aproximo da campa certa.
A cada passo a dor é mais forte, mais intensa. Persiste em querer fazer-me parar, em atirar tudo para o chão, virar costas e fugir daquilo que parece um pesadelo demasiado real.

Sou fraca! Sempre o disse. Mesmo quando ele dizia o contrário eu sentia-me assim. Mesmo sabendo que, se fosse tão fraca quanto acho, ele não estaria comigo. Porque ele odiava pessoas fracas e com medo de viver as suas vidas e arriscar por algo melhor para si mesmas.
Fazia tudo parecer tão simples, mesmo que a ideia fosse agarrar na mochila e partir à volta do Mundo à descoberta. Qualquer um diria que isso era uma loucura, mas ele não, ele diria que isso era arriscar sair do banal, deixar para trás, provavelmente, uma vida insatisfeita e aborrecida e procurar um futuro promissor repleto de vida e oportunidades.
E o mais fascinante era a convicção com que o dizia, podendo mesmo fazer com que a pessoa mais céptica pensasse duas vezes no assunto.
Ter coragem de arriscar em busca de algo melhor. Era essa a sua definição de ser forte.

Mas eu sou fraca, recuso-me cada vez mais a arriscar e vejo a minha vida a ficar cada vez mais inerte. No fundo não quero sair da minha zona de conforto, por mais crítica que ela seja. Não me sinto bem, mas isso também não é sinónimo de me sentir mal.

Os últimos passos até à placa de mármore sobre a qual se ergue uma outra mais pequena com uma foto a cores. Ao lado pode-se ler:

«Aqui jaz Daniel, um filho amado que partiu demasiado cedo»

A foto eu conheço bem, é igual à que trago dentro do medalhão ao pescoço. Mostra como ele realmente era.
Os longos cabelos negros encaracolados enquadravam o seu rosto longo numa moldura quase perfeita, os olhos verdes pareciam sorrir, mesmo que uma simples foto não conseguisse captar toda a intensidade do seu brilho. Sorria como o fazia sempre, mostrando os dentes quase perfeitamente alinhados à excepção de um incisivo à esquerda que estava ligeiramente mais recuado.

Sinto a dor e o alívio. Dor por nunca mais o ter como tive, alívio por ter conseguido cumprir a promessa que fiz a mim mesma e por finalmente me permitir chorar lágrimas que durante um ano guardei para mim.
Deposito os lilases, as suas flores favoritas, em cima da campa. Um pequeno gesto simbólico. E sento-me na terra seca, em silêncio enquanto me recordo da suas última palavra.

"Amo-te."



Tiago Venâncio

19-07-2012



1 comment:

Unknown said...

really love this text